REUNIÃO GERAL DE PASTORES PÓS-GEDELTI
O MINISTÉRIO É MAIOR QUE A VIDA
No dia 15 de julho de 2025, menos de duas semanas após o falecimento de Gedelti Gueiros, foi realizada uma reunião geral de pastores da Igreja Cristã Maranata por videoconferência. O encontro, conduzido pelo novo presidente, Alexandre Gueiros, e por conselheiros históricos como Amadeu Loureiro, Gilson Sousa e Júlio César, revelou a continuidade de um projeto religioso centrado no exclusivismo, na dependência cega de supostas revelações espirituais, e na glorificação da figura de Gedelti como mentor espiritual inquestionável.
Recebemos de pastores que participaram da reunião informações sobre o seu conteúdo e apresentamos aqui uma análise crítica de pontos centrais, que expõem o modelo institucional da ICM como uma estrutura eclesiástica que, mesmo diante de tantas denúncias e escândalos, mantém intacta sua lógica sectária e autoritária.
1. “Em nenhuma denominação há servos tão dedicados quanto os nossos”
Essa afirmação de Alexandre Gueiros revela o exclusivismo religioso que marca a identidade da ICM desde sua fundação. A ideia de que os pastores da Maranata são superiores aos de todas as demais igrejas do mundo é incompatível com o espírito do evangelho, que nos ensina a humildade (Filipenses 2:3) e a valorização do corpo de Cristo como um todo (1 Coríntios 12). Tal postura não edifica a fé, mas a arrogância denominacional.
2. “Gedelti entesourou para os filhos” – Legado de bênção ou de maldição?
A referência à carta de Paulo (“cabe aos pais entesourarem para os filhos”) é usada para exaltar Gedelti como alguém que teria deixado um “tesouro” para a igreja. No entanto, os fatos sugerem outro tipo de herança: dízimos acumulados em cofres e uma instituição isenta de compromisso social ou fraternal.
As ações fraternais realizadas pelas congregações locais não podem utilizar os valores recolhidos dos membros a título de dízimos e ofertas. Neste caso, os pastores locais são orientados a fazer “vaquinhas” entre os membros para socorrer o necessitado, para não utilizar os valores recolhidos na própria igreja.
As ações sociais promovidas pela ICM são eventuais e contam com o voluntariado dos membros e com doações dos próprios membros, além de participação governamental que utiliza o espaço cedido pela ICM para a realização dessa ações fraternais. Não existe nenhum programa de ação social permanente e nenhuma destinação orçamentária para a promoção de ações sociais, além do fato de que a ICM não possui nenhuma clínica de recuperação de viciados, nenhum lar de idosos e nenhum orfanato para acolhimento social. Ou seja, suas ações sociais são eventuais, cedendo apenas o local para a sua realização e evitando custos para a igreja, uma vez que o serviço prestado é voluntário e os produtos doados são em quase sua totalidade provenientes de doações dos próprios membros.
O fato é que a Maranata, apesar o marketing que tem feito ultimamente, nunca foi conhecida por práticas de ação social, fraternal, caridade ou acolhimento comunitário. O que restou foi um “tesouro” terreno, como alertou Jesus: “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mateus 6:21).
3. “Aprendemos aos pés do nosso Gamaliel”
A comparação de Gedelti a Gamaliel, mestre de Paulo, é simbólica e preocupante. A narrativa traça Gedelti como mestre, guia espiritual e padrão de fé, gerando um culto à personalidade que ultrapassa qualquer função pastoral.
Quem acompanhava as Escolas Bíblicas sempre comandadas por Gedelti sabe que se trata de uma pessoa intransigente, inquestionável, “dono da verdade absoluta” e apresentador de heresias como se fossem revelações de Deus. Gedelti não tinha formação teológica, apesar de ter adquirido alguns títulos “honoris causa”, e seus ensinamentos eram confusos e as doutrinas que criou além de não serem bíblicas aceitas pela repetição e não pela compreensão, uma vez que os membros e pastores sentem dificuldades para explicar biblicamente qualquer doutrina da igreja, a exemplo da quinta medida, do arrebatamento na quarta trombeta, do quimerismo e etc.
5. “O ministério é maior que a vida”
Alexandre Gueiros cita essa frase de Gedelti como se fosse algo louvável e um parâmetro para os pastores.
Entretanto, essa frase é um gatilho para a manipulação e exploração dos pastores que devem se dedicar à igreja acima de qualquer outra prioridade da vida.
Afirmar que o ministério é mais precioso do que a vida é um incentivo perigoso à anulação da individualidade e da família em nome da instituição, o que vai contra a orientação bíblica de que o ministério começa no cuidado com a casa (1 Timóteo 3:4-5).
Os resultados podem ser observados na família dos próprios pastores da cúpula da igreja. Há inúmeros relatos de esposas que são “viúvas de maridos vivos” e de filhos que detestam a igreja porque a culpam de terem “roubado seus pais” quando mais precisavam deles.
6. “Nada mudará com relação à doutrina”
Essa declaração confirma o que muitos já intuíram: a ICM não está interessada em reforma, reconciliação ou mudança de rumos para conduzir sua membresia à simplicidade do evangelho.
Ao reafirmar a continuidade doutrinária do legado de Gedelti, a liderança confirma que a instituição permanece firme em seus erros teológicos, em suas práticas religiosas manipuladoras e em sua lógica de dominação espiritual, sem abertura para correções bíblicas ou autocrítica.
Uma seita que se recusa a mudar nunca poderá pretender ser reconhecida como igreja cristã. Permanecerá seita.
Do ponto de vista das injustiças e perseguições a ex-membros, também não houve qualquer sinalização de que esse comportamento anticristão será corrigido. A ICM continua financiando o escritório de advocacia de Isaías Diniz, pastor da igreja, para levar adiante todas as ações judiciais que moveu contra ex-membros e redes sociais.
7. “Só temos uma chance de não errar: consultando ao Senhor”
Essa frase, celebrada na reunião como uma “revelação original”, é contraditória diante dos fatos: a mesma liderança que afirma ouvir a voz de Deus em tudo foi denunciada pelo Ministério Público por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, ameaça a testemunhas, e estelionato. Se tudo era consultado ao Espírito Santo, como explicar os crimes cometidos sob o manto da espiritualidade?
Como explicar, também, os pastores que foram levantados por revelação de Deus, tudo seguindo o ritual da bibliomancia, mas que estavam na prática de crimes ou com comportamentos inadequados?
A título de exemplo, pode-se citar evento nacionalmente conhecido em que a Igreja Cristã Maranata realizou um culto para nomeação de novos pastores, 501 ao todo. Nesse culto, transmitido na rede mundial de computadores, no dia 3/10/2020, foi apresentado um pastor que, segundo foi dito nesse culto, tinha sido escolhido por “revelação de Deus” (dom espiritual), consultado a Deus inclusive no Presbitério. Ou seja, foi dito a todos os expectadores que Deus tinha falado com a cúpula da Igreja Maranata e que Wilson Caoduro era um homem que preenchia todos os requisitos morais e espirituais para ser um pastor de ovelhas na Igreja Maranata.
Entretanto, no dia 3/1/2021, em uma matéria jornalística apresentada no Fantástico, da Rede Globo, Wilson Caoduro foi indicado como um participante de uma quadrilha aparelhada para praticar crimes contra a ordem fiscal e tributária, o que já vinha ocorrendo há muito tempo, muito antes de “Deus revelar” que ele era um homem da mais alta fibra moral e espiritual, a ponto de ser levantado pastor da Igreja Cristã Maranata, lugar onde só existem pastores “selecionados por Deus”.
O culto referido está publicado no seguinte endereço: https://www.youtube.com/watch?v=ZgELfkxcnx8&t=629s – no minuto 13:04 aparece Wilson Caoduro e a partir do minuto 40:02, um dos pastores apresenta uma “revelação de Deus” no seguinte teor:
“O Senhor deu uma revelação, uma revelação para os levantados ao ministério da palavra. A revelação que o Senhor deu foi essa. O Senhor falava assim: filhos eu vos chamo para uma obra de obediência. Não temais, eu sou convosco. Vos ajudarei nesse ministério. Abençoo as vossas vidas e as vossas famílias. Eu sou o Senhor, pego em vossas mãos e os conduzo por este caminho. A minha graça vos sustentará”. E no trecho, entre 1:20:38 e 1:25:05 o pastor pregador diz o seguinte: “todos esses homens, esses ministérios que o Senhor levantou hoje para a sua glória, para o seu louvor, para a sua obra, creiam de todo o coração: não foi o pastor que te escolheu, não foi uma escolha por simpatia, mas foi o Senhor, o Deus de Moisés, o mesmo Deus que te escolheu para realizar esta grande obra”.
Outro exemplo é o de Renoldi V. T. Monteiro, também levantado neste mesmo culto, por revelação de Deus, consultado no Presbitério. Referido pastor era coordenador da Guarda Portuária da Companhia Docas do Espírito Santo – CODESA e foi surpreendido exibindo seu órgão sexual em sua rede social. Quanto a este caso, o próprio sindicato emitiu nota de repúdio em relação ao seu comportamento.
Portanto, se a Igreja Cristã Maranata só tinha uma chance de não errar, desperdiçaram essa chance há muitos anos.
7. “A doutrina não mudou… mas também mudou…”
O discurso de Amadeu Loureiro é emblemático. Ele tenta sustentar que a doutrina nunca mudou, ao mesmo tempo em que afirma que houve “novas revelações” e “aberturas” com novos nomes, como “quinta medida”, “palavra viva” e “palavra da vida”. A confusão semântica é sintoma de uma doutrina instável, confusa, sustentada por revelações subjetivas que servem ao propósito de manter o povo dependente das interpretações do presbitério.
8. “Estamos à margem do Jordão”
A analogia é clara: Gedelti seria Moisés, e Alexandre, Josué. A mesma analogia já foi usada outras vezes. O problema é que ela assume um paralelo perigoso entre o plano de salvação bíblico e a história institucional da Maranata, como se esta fosse a continuação da narrativa redentora. Isso reforça o delírio sectário de que só há salvação dentro da ICM e que tudo fora dela é “mundo”.
9. “Os meios tradicionais pararam no tempo”
O pastor Gilson Sousa ataca todas as demais igrejas evangélicas, chamando-as de estagnadas e desatualizadas espiritualmente. Ao fazer isso, reforça a velha retórica da Maranata: “nós somos os únicos que andam com Deus”.
Esse tipo de narrativa está no DNA de todas as seitas exclusivistas, como os Mórmons, Adventistas do Sétimo Dia, Testemunhas de Jeová e outras que se colocam como a “restauração final da igreja”.
10. “Estamos entrando na Terra Prometida”
A alegoria de conquista é completada pelo Pr. Gilson Sousa com uma aplicação da expansão internacional da ICM como cumprimento de um “projeto divino” que atravessa Abraão, Josué, os Juízes e culmina em Jerusalém.
Esse tipo de paralelismo substitui o evangelho de Cristo pela glória institucional da igreja, transformando a Maranata em suposta herdeira do plano redentor, o que é blasfemo e narcisista. Só não vê quem não quer ver.
11. “Obra internacional: expansão ou cooptação?”
Alexandre Gueiros faz um longo relato sobre o crescimento da ICM no exterior, especialmente em países como Índia, Mongólia, Filipinas, Eslováquia, entre outros. Mas o que se vê é um esforço para cooptar igrejas e pastores já estabelecidos, e não evangelizar pessoas que nunca ouviram falar de Cristo.
Isso não é missão: é colonização e expansão institucional.
A ICM não envia missionários para viver com os pobres, para ensinar o evangelho a quem nunca ouviu falar de Cristo, mas tenta exportar o “modelo Maranata” como produto religioso, como se esse fosse o modelo único capaz de levar os homens a Deus.
A pergunta que todos deveriam fazer é a seguinte: qual o custo deste projeto? Quem paga essa conta? Qual a razão de ser de um projeto de agregação de outras igrejas cristãs? Por que todo esse esforço, tempo e dinheiro não está sendo investido em ações sociais, ações fraternais e pregação do evangelho a quem não conhece a Cristo?
Conclusão
A reunião de 15/07/2025 confirma que a ICM segue firme em seu projeto de poder e de exclusivismo espiritual, ignorando os alertas bíblicos, as crises internas e as vozes dos que clamam por reforma.
O culto a Gedelti, a ausência de arrependimento pelas denúncias de corrupção, o apego a revelações particulares e o ataque a outras igrejas demonstram que a liderança da Maranata não quer mudança — quer continuidade.
Diante disso, a esperança de que essa instituição pudesse um dia se tornar uma igreja cristã saudável se esvai a cada novo pronunciamento de seus líderes. Orem por seus membros, confrontem sua teologia, e lutem pela verdade. Cristo não tem parte com o engano — nem mesmo quando ele vem embalado em profecias e doutrina do “Espírito Santo”.